Inovação pública e governo

Por que as pessoas não aderem a uma política pública? As ciências comportamentais ajudam a entender

Por que as pessoas não aderem a uma política pública? As ciências comportamentais ajudam a entender

Entenda como as ciências comportamentais ajudam a explicar a baixa adesão a políticas públicas e a testar soluções antes de ampliar sua aplicação.

Uma política pública pode existir, estar disponível e ainda assim não gerar a adesão esperada. Pessoas deixam de solicitar benefícios a que têm direito, abandonam cadastros no meio do caminho, não concluem uma jornada digital ou simplesmente não se reconhecem como público de determinado serviço.

É nesse tipo de situação que as ciências comportamentais podem ajudar. Em vez de partir apenas do que a política oferece, essa abordagem procura entender como as pessoas tomam decisões diante dela, quais barreiras encontram e o que influencia seu comportamento.

“Na prática, significa olhar para como as pessoas realmente tomam decisões e se comportam diante de uma política ou serviço público, e não apenas para como gostaríamos que elas se comportassem”, explica Priscila Freitas, líder de projetos estratégicos no Impact Hub.

O que são ciências comportamentais aplicadas a políticas públicas

As ciências comportamentais reúnem conhecimentos de áreas como psicologia, economia comportamental e ciência cognitiva para investigar como as pessoas tomam decisões.

Quando aplicadas ao setor público, ajudam a entender por que alguém adere ou não a uma política, conclui ou abandona uma jornada, responde a uma comunicação ou deixa de acessar um serviço disponível.

Essa análise considera elementos como informação, contexto, incentivos, burocracia, percepção de risco, confiança e esforço necessário para realizar determinada ação.

Mas o processo não se resume a observar comportamentos. Também envolve escuta e pesquisa com as pessoas que vivenciam aquela realidade, formulação de hipóteses e testes de alternativas antes que uma solução seja aplicada em maior escala.

Na prática, isso pode ajudar a compreender situações como:

  • pessoas que têm direito a um benefício, mas não o acessam;
  • empreendedores que poderiam se formalizar, mas não avançam no processo;
  • usuários que iniciam um atendimento e desistem antes de concluí-lo.

Por que entender o comportamento muda o desenho de uma política

Uma das dificuldades no desenho de políticas públicas está em interpretar corretamente a causa de determinado comportamento.

Se poucas pessoas utilizam um serviço, por exemplo, uma primeira hipótese pode ser falta de informação. A resposta mais imediata seria fazer uma nova campanha de comunicação.

Mas a informação pode já estar chegando. O problema pode estar em outro ponto:

  • excesso de etapas;
  • linguagem pouco clara;
  • insegurança;
  • falta de confiança;
  • dificuldade de acesso;
  • a pessoa não entende se aquela política foi feita para ela.

Para Priscila, esse é um dos desafios centrais: “Quando não investigamos o comportamento, corremos o risco de criar soluções para um problema que não é exatamente o problema real.”

Por isso, a pergunta muda. Em vez de começar por “qual solução devemos criar?”, a equipe passa a investigar primeiro “o que está influenciando esse comportamento e quais barreiras podem estar contribuindo para ele?”.

Essa investigação permite formular hipóteses, buscar evidências e, a partir do diagnóstico, desenhar estratégias mais alinhadas ao contexto real em que o comportamento acontece.

Do problema percebido ao problema real

Imagine um serviço público que apresenta baixa adesão. A equipe pode concluir que o cidadão desconhece sua existência. Porém, depois de investigar a jornada, pode descobrir que as pessoas conhecem o serviço, mas não entendem a linguagem utilizada no material de divulgação. Ou que começam o cadastro e desistem porque o processo exige muitas etapas.

São problemas diferentes e, portanto, exigem respostas diferentes. As ciências comportamentais ajudam a separar a percepção inicial da causa que precisa ser investigada.

Isso também reduz a dependência de suposições. A equipe passa a construir hipóteses que podem ser observadas, testadas e comparadas.

Como testar uma hipótese antes de ampliar uma solução

Uma intervenção comportamental costuma começar por um comportamento específico.

Se o desafio é aumentar a adesão a um serviço, por exemplo, a investigação pode procurar identificar em que momento da jornada ocorre a desistência e o que interfere naquela decisão.

A partir disso, a equipe formula hipóteses e testa mudanças em pequena escala. Pode alterar uma mensagem, reduzir etapas, modificar o canal de contato, testar lembretes ou mudar a maneira como determinada informação é apresentada.

O objetivo é produzir evidências sobre o que funciona, o que não funciona e o que precisa ser ajustado antes de uma implementação maior.

Esse tipo de trabalho esteve no centro da Maratona de Ciências Comportamentais, executada pelo Impact Hub e promovida pelo Sebrae Nacional em parceria com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) com apoio metodológico da unidade CINCO.

O que a Maratona de Ciências Comportamentais mostrou na prática

A Maratona reuniu equipes públicas para trabalhar problemas concretos a partir de ferramentas de ciências comportamentais.

Segundo Priscila, um dos principais aprendizados foi perceber que as equipes já conhecem profundamente os desafios com os quais trabalham. Muitas vezes, o que falta é criar espaço, método e condições para transformar esse conhecimento em hipóteses, experimentos e aprendizado.

Durante a experiência, as equipes passaram da percepção do problema para uma investigação estruturada. Formularam hipóteses, adaptaram soluções ao contexto, fizeram testes em pequena escala e analisaram os resultados antes de decidir o que deveria ser ajustado ou ampliado.

Dois experimentos ajudam a mostrar como isso funciona na prática.

1. Empreendedorismo feminino e o efeito de pequenos estímulos

Em um dos desafios, a equipe investigou formas de aumentar o uso de um assistente financeiro por mulheres empreendedoras.

O teste envolveu 446 participantes durante 15 semanas e comparou diferentes formas de apoio digital, com recursos como lembretes, metas e feedbacks.

No grupo de controle, a taxa de semanas ativas foi de 7,6%. Entre as participantes que receberam uma abordagem mais formal, chegou a 18,3%. No grupo que recebeu uma comunicação mais acolhedora, ficou em 16,5%.

O experimento indica que pequenas mudanças na maneira como as pessoas são acompanhadas podem interferir na continuidade de uso de um serviço.

Também mostra por que testar diferentes alternativas pode ser mais útil do que assumir previamente qual linguagem ou incentivo produzirá o melhor resultado.

2. GOV.BR e WhatsApp mostram que o canal também importa

Outro experimento analisou a comunicação com fornecedores em um contexto de compras públicas.

Os resultados mostraram diferenças importantes entre WhatsApp e Caixa de Notificações do GOV.BR.

No WhatsApp, 74,5% das mensagens entregues foram lidas. Na Caixa de Notificações do GOV.BR, apenas 4,35% dos pushes recebidos chegaram à leitura.

Ao final, foram realizados 15 cadastros, sendo 9 originados pelo WhatsApp e 6 pela Caixa de Notificações.

Porém, quando a análise considera apenas quem leu a mensagem, o resultado muda. A conversão entre leitores foi de 1,60% no GOV.BR e de 0,28% no WhatsApp.

Isso mostra que leitura, alcance e conversão representam etapas diferentes de uma mesma jornada.

A Caixa de Notificações do GOV.BR teve dificuldade para levar as pessoas até a mensagem, mas apresentou uma taxa proporcionalmente maior de cadastro entre aquelas que chegaram a lê-la.

Já o WhatsApp alcançou mais pessoas e gerou mais cadastros em números absolutos. Isso porque a base dele precisava ser bem maior. Quem mais converteu foi o canal da mensageria do GOV.BR, que usou uma base menor e teve mais cadastros.

WhatsApp: 3.190 leituras → 9 cadastros → 0,28% dos leitores
Caixa + push: 375 leituras → 6 cadastros → 1,60% dos leitores

“A experiência mostrou que o canal e a facilidade do percurso podem ser tão importantes quanto a própria mensagem”, resume Priscila.

Cultura de aprender antes de escalar

As ciências comportamentais não substituem outras ferramentas de política pública. Também não resolvem problemas de infraestrutura, falta de orçamento, ausência de equipes ou barreiras legais.

Seu papel está em ajudar a investigar situações nas quais o comportamento das pessoas interfere no resultado de uma política ou serviço.

A Maratona mostra uma mudança importante de método. Em vez de implementar uma solução baseada apenas em uma interpretação inicial do problema, as equipes podem formular hipóteses, realizar experimentos e usar os resultados para decidir o próximo passo.

Para Priscila, esse é um dos principais aprendizados da experiência: construir uma cultura de políticas públicas que aprende antes de escalar.

Quando uma equipe testa primeiro, ela consegue identificar barreiras que poderiam passar despercebidas, comparar alternativas e tomar decisões com base no comportamento observado durante o experimento.

A publicação “Inovação, Clima e Território no Brasil: um panorama de 2025 sobre método, escala e impacto”, do Impact Hub, reúne os cases da Maratona de Ciências Comportamentais e outras experiências que mostram como governos estão incorporando novas formas de investigar problemas, testar soluções e desenvolver políticas públicas.

Baixe a publicação e conheça os cases completos de inovação pública.

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