Ambientes de Inovação e Comunidades

IA no governo: o próximo passo é fazer a tecnologia gerar valor público

IA no governo: o próximo passo é fazer a tecnologia gerar valor público

Entenda como a IA no governo avança no Brasil, quais barreiras ainda limitam sua adoção e o que gestores públicos e startups B2G precisam observar.

A discussão sobre IA no governo costuma começar pela ferramenta. Qual sistema usar, que processo automatizar, qual atendimento transformar em chatbot, que base de dados analisar. Mas os dados mais recentes sobre governo digital no Brasil indicam que a pergunta mais importante vem antes: os órgãos públicos estão preparados para usar inteligência artificial com responsabilidade, continuidade e impacto?

Essa é uma das leituras do novo report do Observatório de Tendências da Estação Pública, elaborado a partir da pesquisa TIC Governo Eletrônico 2023, do CGI.br, NIC.br e Cetic.br. A pesquisa é uma das principais bases de evidência sobre o uso de tecnologias digitais no setor público brasileiro.

O papel do Observatório, neste estudo, é interpretar esses dados como sinais de tendência e traduzi-los em diretrizes para gestores públicos e startups que desenvolvem soluções para a gestão pública.

Segundo a pesquisa, o uso de tecnologias de inteligência artificial entre órgãos públicos federais e estaduais passou de 24% para 30% entre 2021 e 2023. No mesmo período, a internet das coisas avançou de 18% para 27%.

Os números confirmam que o setor público brasileiro não está parado diante das novas tecnologias. A IA já entrou na agenda de parte dos órgãos, especialmente nos que têm maior estrutura técnica, orçamento, dados disponíveis e experiência prévia em digitalização.

Mas o mesmo dado também revela o tamanho do caminho pela frente. Como 30% dos órgãos federais e estaduais declararam usar IA, a maioria ainda não adota esse tipo de tecnologia.

A próxima fase, portanto, será sobre quem consegue criar as condições para usar IA de forma segura, útil e sustentável. Nesse sentido, a IA no governo deve ser entendida como parte de uma agenda mais ampla de inovação pública, orientada à melhoria dos serviços, à qualificação das decisões e à geração de valor para o cidadão.

A IA avança de forma desigual

A adoção de IA no governo não acontece no mesmo ritmo em todos os lugares. Em 2023, aproximadamente 49% dos órgãos federais utilizavam tecnologias de inteligência artificial, enquanto esse percentual era de 28% entre os órgãos estaduais.

A diferença mostra que a IA tende a seguir a lógica de outras agendas digitais: quem já tem mais orçamento, equipe, infraestrutura, governança e dados organizados tende a avançar antes.

Esse movimento também aparece quando os dados são observados por poder. Judiciário, Legislativo e Ministério Público apresentam percentuais mais altos de adoção de IA do que o Executivo. Isso sugere que cada segmento do setor público tem dores, ritmos e oportunidades diferentes.

No Judiciário e no Ministério Público, por exemplo, os percentuais mais altos de adoção indicam um campo relevante para soluções ligadas a análise documental, triagem, gestão processual, atendimento e apoio à tomada de decisão.

No Executivo, o campo é mais amplo e heterogêneo, envolvendo saúde, educação, assistência social, fiscalização, mobilidade, atendimento ao cidadão, compras públicas e gestão interna.

Para gestores públicos, isso reforça a importância de evitar soluções genéricas. Para startups que desenvolvem tecnologias para governo, o recado é igualmente claro: o mercado B2G exige leitura de contexto. Uma solução que funciona para um tribunal pode não funcionar da mesma forma em uma secretaria municipal.

O principal gargalo não é só financeiro

Entre os órgãos que ainda não usam IA, as principais barreiras não se resumem ao custo da tecnologia. Nos órgãos federais, a falta de pessoas capacitadas foi o motivo mais citado para a não adoção, mencionada por 34%. Em seguida, aparece o fato de a IA não ser prioridade para o órgão público, com 25%.

Nos estados, as barreiras aparecem de forma mais distribuída: falta de prioridade, falta de pessoas capacitadas, incompatibilidade com tecnologias existentes, dificuldades de disponibilidade ou qualidade dos dados e falta de necessidade ou interesse aparecem em patamares próximos.

Esse diagnóstico muda a forma de olhar para a IA no governo. Para além de comprar ou contratar uma solução, o desafio é ter capacidade institucional para reconhecer o problema público, organizar dados, avaliar riscos, integrar sistemas, contratar bem, acompanhar a implementação e medir resultados.

Sem essa base, a IA corre o risco de se tornar mais uma camada tecnológica sobre processos que continuam fragmentados, pouco transparentes ou difíceis para o cidadão.

A maturidade pública para IA começa antes do algoritmo. Começa na pergunta que orienta o projeto: qual problema público queremos resolver?

A infraestrutura vem antes da inteligência

A pesquisa também mostra que a computação em nuvem cresceu de forma expressiva entre órgãos federais e estaduais. Em 2023, 81% dos órgãos federais e 59% dos estaduais contratavam e-mail em nuvem. Serviços de software de escritório em nuvem eram usados por 74% dos federais e 37% dos estaduais. Armazenamento de arquivos ou banco de dados em nuvem chegou a 63% no nível federal e 45% no estadual.

Esses dados indicam que os órgãos entendem que a IA depende de infraestrutura. Sem dados disponíveis, organizados, seguros e acessíveis, a inteligência artificial tende a operar com baixa qualidade ou alto risco. Sem integração entre bases e sistemas, a tecnologia pode automatizar partes isoladas do processo, mas não melhorar a jornada do cidadão.

O mesmo vale para a identidade digital. O estudo mostra que ainda predomina o uso de cadastros próprios para acesso a serviços online, com menor integração do login Gov.br fora do nível federal. Isso indica uma agenda importante para os próximos anos: reduzir múltiplos cadastros, ampliar interoperabilidade e facilitar o acesso do cidadão aos serviços públicos digitais.

Para startups B2G, essa é uma oportunidade e um alerta. Soluções para governo precisam conversar com sistemas legados, cadastros próprios, bases estaduais, Gov.br e ambientes de infraestrutura variados. A tecnologia mais sofisticada nem sempre será a mais aderente. Muitas vezes, vencerá a solução que reduz a complexidade da adoção.

Digitalizar serviço não basta

A transformação digital do setor público brasileiro avançou na última década. Em 2023, 91% das prefeituras disponibilizavam em seus websites ao menos um dos oito serviços digitais investigados pela TIC Governo Eletrônico. Em 2013, eram 75%.

Mas a desigualdade municipal segue evidente. Entre prefeituras com mais de 500 mil habitantes, 94% ofereciam cinco ou mais tipos de serviços online. Entre prefeituras com até 10 mil habitantes, esse percentual era de 56%.

Esse dado é relevante para a discussão sobre IA no governo. Se a próxima fase da transformação digital for desenhada apenas para grandes estruturas, ela pode ampliar desigualdades entre capitais, grandes municípios e cidades pequenas.

IA aplicada à gestão pública precisa considerar diferentes níveis de maturidade. Para pequenos e médios municípios, soluções modulares, simples de implantar, acessíveis, interoperáveis e acompanhadas de capacitação podem gerar mais valor do que plataformas complexas, caras e difíceis de manter.

A mesma lógica vale para atendimento ao cidadão. O setor público está cada vez mais online, mas ainda conversa pouco em tempo real. Entre órgãos federais e estaduais, a presença de e-mail e ouvidoria online é alta, mas os canais em tempo real ainda têm adoção desigual: atendimento automatizado com assistente virtual ou chatbot aparece em 31% dos órgãos federais e 18% dos estaduais; chat com atendentes em tempo real aparece em 36% dos federais e 18% dos estaduais. Entre prefeituras, menos de 10% possuem chatbots ou assistentes virtuais em suas páginas na internet.

Há, portanto, espaço claro para IA no atendimento público.

“Automatizar respostas não é suficiente. Um chatbot que apenas reproduz a burocracia em linguagem digital não melhora a experiência do cidadão.”

— Alan da Silveira, coordenador da Estação Pública

A oportunidade está em redesenhar jornadas, integrar canais, dar respostas úteis e encaminhar demandas com rastreabilidade.

O que muda para gestores públicos

Para gestores públicos, a agenda da IA precisa ser tratada como parte de uma estratégia mais ampla de governo digital. Não começa pela escolha da ferramenta, mas pela preparação da instituição.

Isso envolve formular problemas públicos com clareza, organizar dados, desenvolver competências internas, planejar integração com sistemas existentes, definir critérios de governança e criar indicadores de resultado.

Também exige reconhecer que IA no setor público não pode ser medida apenas por eficiência interna. A pergunta final deve ser: melhorou o acesso, reduziu tempo, diminuiu erro, aumentou transparência, qualificou a tomada de decisão dos gestores públicos ou gerou valor para o cidadão?

Sem essa régua, o risco é confundir adoção tecnológica com transformação pública.

O que muda para startups B2G

Para startups que desenvolvem soluções para gestão pública, o estudo aponta uma oportunidade importante. A demanda existe, mas o setor público opera com diferentes níveis de infraestrutura, capacidade técnica, dados e maturidade institucional.

Por isso, vender IA para governo não deve ser apenas vender a tecnologia, mas também apoiar a implementação.

As soluções com maior aderência tendem a reunir algumas características: partir de uma dor pública concreta, permitir implantação progressiva, integrar-se a sistemas existentes, respeitar segurança e proteção de dados, oferecer evidências de resultados e transferir conhecimento para as equipes públicas.

Em outras palavras, o diferencial competitivo no mercado B2G não estará apenas na sofisticação do modelo de IA. Estará na capacidade de reduzir barreiras de adoção e aumentar a confiança do gestor público.

A IA pública será uma agenda de ecossistema

A IA no governo exige articulação entre gestores públicos, startups, empresas de tecnologia, universidades, órgãos de controle, sociedade civil e instituições de apoio.

A Estação Pública atua nesse ponto de encontro: onde os desafios da gestão pública precisam encontrar soluções tecnológicas viáveis, testáveis e capazes de permanecer.

A proposta é criar conexões qualificadas entre governos, startups, empresas, academia e sociedade civil, para que problemas públicos sejam transformados em projetos com valor real para o cidadão.

A inteligência artificial pode apoiar a modernização do Estado brasileiro. Mas só será estratégica se vier acompanhada de método, governança, inclusão e capacidade de implementação.

Baixe o estudo completo do Observatório de Tendências da Estação Pública e veja os principais dados, tendências e diretrizes para a adoção responsável de IA no governo.

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