No dia 7 de agosto, realizamos no CIVI-CO, em São Paulo, mais uma edição do IM Talks, encontro que promove conexões estratégicas e debates sobre temas urgentes para a sociedade e os negócios. Nesta edição, o tema foi “Meetup de iniciativas que impulsionam a economia e o clima”.
Reunimos empreendedores, organizações, investidores e agentes públicos comprometidos com a inovação climática, a economia verde e o fortalecimento de negócios de impacto no Brasil. Foi um espaço para conhecer cases inspiradores, discutir desafios reais do setor e, acima de tudo, fortalecer a rede de atores que está construindo a transição para uma economia de baixo carbono.
Entre os convidados que compartilharam suas experiências e visões estavam:
O cenário climático global é desafiador: eventos extremos, perda de biodiversidade, aumento das emissões de gases de efeito estufa.
No Brasil, a situação ganha contornos específicos: cerca de 70% das emissões estão ligadas ao uso do solo, ao desmatamento e à degradação florestal, principalmente na Amazônia.
Essa realidade exige respostas rápidas e adaptadas à realidade brasileira, ou seja, soluções que conciliem preservação ambiental, desenvolvimento econômico e justiça climática.
E é exatamente esse o papel da inovação climática: criar e aplicar novas ideias, tecnologias e modelos de negócio que acelerem a transição para uma economia de baixo carbono.
“O tamanho do problema que enfrentamos demanda muita inovação. Precisamos de soluções que testem rápido, aprendam rápido e se adaptem às necessidades do território.”
— Pedro Camarote, GIZ
No IM Talks, discutimos como startups climáticas, sistemas agroflorestais, projetos de crédito de carbono e modelos de desenvolvimento territorial sustentável já estão gerando impacto, mesmo diante de desafios estruturais.
Como Impact Hub, acreditamos que o desenvolvimento sustentável é construído coletivamente. Nosso papel é conectar, acelerar e dar visibilidade a iniciativas que unem impacto ambiental e viabilidade econômica.
Por meio de encontros como o IM Talks, conseguimos:
Nosso compromisso é contribuir para que a economia verde não seja apenas um conceito, mas uma realidade presente no cotidiano das empresas, comunidades e consumidores.
Um dos momentos mais ricos do nosso IM Talks foi a troca de experiências entre três organizações que, apesar de atuarem em contextos diferentes, compartilham o mesmo objetivo: gerar impacto positivo para o clima e para a economia brasileira.
Cada uma trouxe não apenas sua trajetória, mas também lições valiosas sobre como transformar ideias em soluções concretas e, o mais importante, sustentáveis no longo prazo.
Ao ouvir Sara Sampaio, Pedro Camarote e Augusto Corrêa, percebemos que o caminho para uma economia verde não é único: envolve múltiplas estratégias, desde a atuação no campo com agricultores familiares até a articulação de políticas públicas e investimentos internacionais.
Essa diversidade de perspectivas é justamente o que torna o ecossistema da inovação climática mais forte.
Sara Sampaio apresentou o trabalho da Amazônia Agroflorestal, organização que opera no município de Apuí (AM), um ponto crítico do arco do desmatamento. A iniciativa utiliza sistemas agroflorestais para cultivar café em conjunto com árvores nativas e outras culturas alimentares, garantindo preservação ambiental e renda digna para agricultores familiares.
Além do plantio, o modelo oferece assistência técnica contínua, certificação orgânica participativa e garantia de compra a preço justo, condições que fortalecem a autonomia e a estabilidade econômica das famílias.
Outro destaque foi o projeto pioneiro de crédito de carbono voltado para pequenos produtores, criando novas fontes de receita e conectando comunidades ao mercado de carbono.
“Não basta falar de preservação sem oferecer alternativas econômicas viáveis. Nosso papel é provar que é possível gerar renda e valor mantendo a floresta em pé.”
— Sara Sampaio
Pedro Camarote trouxe a visão de quem atua no elo entre inovação, governo e setor privado. Pela GIZ, ele lidera programas que apoiam startups climáticas e climate techs, ajudando-as a escalar suas soluções e encontrar mercado.
Sua abordagem destaca que fortalecer ecossistemas é tão importante quanto apoiar empresas individualmente. Isso significa criar redes de colaboração, promover eventos de conexão, oferecer acesso a investidores e articular políticas públicas que favoreçam modelos sustentáveis.
Pedro também pontuou que a realidade brasileira exige soluções adaptadas, considerando que aqui a maior parte das emissões está ligada ao uso da terra. Nesse sentido, integrar saberes tradicionais às inovações tecnológicas é fundamental para garantir resultados efetivos e duradouros.
“Nosso papel é catalisar conexões e criar condições para que tecnologias e modelos de negócio sustentáveis prosperem.”
— Pedro Camarote
Augusto Corrêa apresentou a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), que atua no desenvolvimento territorial sustentável por meio do fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade, incentivo a negócios sustentáveis e apoio à governança comunitária.
A PPA já mobilizou mais de R$ 60 milhões para apoiar 220 negócios e projetos na região amazônica, criando pontes entre comunidades locais e o mercado. Augusto destacou que empreender na Amazônia exige resiliência diante de desafios como logística precária, insegurança fundiária e ausência de políticas públicas efetivas.
Ainda assim, ele vê na COP 30, que será realizada em Belém, uma oportunidade sem precedentes para dar visibilidade global às soluções brasileiras.
“A COP30 é uma oportunidade única para mostrar ao mundo que o Brasil tem soluções inovadoras e de impacto para o clima e a economia.”
— Augusto Corrêa
Ao reunir essas três perspectivas, ficou claro que a inovação climática é multifacetada. Não existe um único modelo para impulsionar a economia verde: é preciso agir em diferentes frentes ao mesmo tempo.
Enquanto iniciativas como a Amazônia Agroflorestal mostram a força da produção sustentável no campo, organizações como a GIZ reforçam a importância de estruturar ecossistemas de inovação, e plataformas como a PPA conectam o desenvolvimento territorial a uma visão estratégica de longo prazo.
Essa combinação de atuação local, fortalecimento de redes e articulação global é o que pode realmente acelerar a transição para uma economia de baixo carbono no Brasil.
Falar sobre inovação climática e economia verde é inspirador, mas também exige realismo: transformar soluções em impacto em larga escala no Brasil envolve barreiras estruturais e culturais.
No IM Talks, identificamos que, apesar do avanço de startups climáticas, sistemas agroflorestais e modelos de desenvolvimento territorial sustentável, há obstáculos que ainda limitam o crescimento desses negócios e sua capacidade de atingir mais comunidades, mercados e territórios.
Esses desafios não são exclusivos do Brasil, mas aqui eles assumem características específicas ligadas à nossa geografia, à infraestrutura e ao modelo econômico vigente.
Ao mapear esses pontos críticos, conseguimos visualizar não apenas as dificuldades, mas também as oportunidades para fortalecer o ecossistema e criar condições mais favoráveis para o florescimento de soluções climáticas.
Muitos modelos de negócios de impacto ambiental, como projetos de restauração florestal, agroflorestas e manejo sustentável, demandam anos para apresentar retorno financeiro significativo. Isso cria uma barreira para empreendedores que precisam gerar caixa rapidamente e para investidores que buscam retorno no curto prazo.
A solução passa por atrair capital paciente e criar mecanismos de financiamento que compreendam o tempo natural desses processos. Políticas públicas e fundos específicos para projetos de longo ciclo podem ajudar a reduzir essa lacuna.
A falta de regularização da posse da terra é um dos principais entraves para o avanço de negócios sustentáveis, especialmente na Amazônia. Sem a documentação legal, produtores e comunidades não conseguem acessar crédito, participar de programas de incentivo ou vender créditos de carbono no mercado formal.
Esse problema não é apenas jurídico, mas estrutural: enquanto não houver uma política efetiva de regularização fundiária, muitas soluções permanecerão restritas a projetos-piloto ou ações pontuais.
Para quem atua em áreas remotas, a ausência de internet estável, estradas em bom estado e transporte eficiente representa um desafio diário. Isso impacta desde o acesso à assistência técnica até a logística de escoamento da produção.
Sem essa base mínima, qualquer tentativa de escalar operações enfrenta custos mais altos e limitações severas na gestão.
Produtos sustentáveis, como café agroflorestal, óleos da sociobiodiversidade e alimentos orgânicos, muitas vezes têm preços mais altos devido a processos produtivos responsáveis e certificações.
Embora exista um público disposto a pagar por esses atributos, ainda há um caminho a percorrer para que o consumo consciente seja prática de massa no Brasil.
Educação ambiental, rotulagem clara e campanhas de sensibilização podem acelerar essa mudança cultural.
A maior parte do capital disponível no mercado de impacto ainda busca retornos financeiros em horizontes curtos. Isso dificulta a expansão de soluções que precisam de tempo para consolidar mercados e comprovar impacto.
A criação de fundos dedicados à transição climática, combinando recursos públicos e privados, pode mudar esse cenário.
O diagnóstico dos desafios não deve ser visto como um desestímulo, mas como um mapa de prioridades para governos, investidores, empreendedores e organizações da sociedade civil. Ao reconhecer onde estão os gargalos, podemos direcionar esforços para destravá-los e criar um ambiente mais propício à economia verde.
Isso significa trabalhar em múltiplas frentes: melhorar a infraestrutura nas regiões estratégicas, avançar na regularização fundiária, criar linhas de crédito específicas, ampliar a educação do consumidor e atrair investidores dispostos a assumir riscos maiores.
Como vimos no IM Talks, as soluções climáticas já existem e funcionam. O que precisamos agora é garantir as condições para que elas cresçam, alcancem mais territórios e multipliquem seu impacto.
O Brasil ocupa uma posição estratégica no debate global sobre clima e desenvolvimento sustentável. Detentor da maior floresta tropical do mundo, de vastos recursos hídricos e de uma das agriculturas mais produtivas do planeta, o país reúne condições únicas para liderar a transição para uma economia verde, que gera crescimento econômico enquanto preserva o meio ambiente e promove justiça social.
No entanto, transformar esse potencial em realidade exige planejamento de longo prazo, políticas públicas consistentes, incentivos econômicos adequados e, acima de tudo, colaboração entre diferentes setores da sociedade.
Durante o IM Talks, a partir das falas de empreendedores, investidores e especialistas, identificamos algumas direções essenciais para o futuro da inovação climática e da economia verde no Brasil.
A adoção de sistemas agroflorestais é uma das soluções mais promissoras para conciliar produção agrícola e conservação ambiental. Esse modelo não apenas restaura o solo e protege recursos hídricos, mas também oferece diversificação de renda aos produtores e reduz a vulnerabilidade econômica causada por monoculturas.
O futuro da economia verde no Brasil passa por escalar iniciativas como a da Amazônia Agroflorestal, integrando tecnologia, capacitação e acesso a mercados para que agricultores familiares e comunidades tradicionais se beneficiem diretamente desse modelo.
A agricultura familiar é responsável por grande parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros e desempenha papel vital na preservação de biomas.
Inserir produtos da sociobiodiversidade, como castanha-do-pará, açaí, óleos e essências, em cadeias de valor estruturadas garante renda justa para comunidades e amplia a oferta de produtos sustentáveis no mercado nacional e internacional.
Isso exige infraestrutura logística, certificações acessíveis e contratos de compra de longo prazo que deem segurança aos produtores.
A pesquisa científica voltada a modelos regenerativos, que restauram ecossistemas e aumentam a resiliência climática, precisa ser mais valorizada e financiada.
Isso inclui o desenvolvimento de novas tecnologias de monitoramento ambiental, o aprimoramento de práticas agroecológicas e a aplicação de bioeconomia para criar produtos inovadores a partir de recursos naturais de forma sustentável.
Universidades, centros de pesquisa e empresas têm papel central na transformação de descobertas em soluções prontas para o mercado.
A falta de padronização e fiscalização na comunicação de atributos sustentáveis abre espaço para o greenwashing, quando uma empresa, marca ou instituição faz parecer que é mais sustentável do que realmente é, usando mensagens de marketing, rótulos, campanhas ou ações pontuais para transmitir uma imagem “verde” sem que isso corresponda, de fato, às suas práticas.
O futuro da economia verde depende de regras claras de rotulagem, certificação e comprovação de impacto ambiental.
Isso traz segurança para o consumidor, estimula empresas a adotarem práticas reais de sustentabilidade e facilita o acesso de negócios de impacto a mercados mais exigentes, como o europeu.
A transição para uma economia de baixo carbono demanda investimento de longo prazo. Modelos de negócios regenerativos, como reflorestamento e manejo florestal sustentável, levam anos para gerar retorno financeiro.
Portanto, atrair fundos de investimento, bancos de desenvolvimento e recursos filantrópicos estruturados para prazos mais longos é fundamental para viabilizar a escalabilidade desses projetos.
O consumo consciente ainda é um nicho no Brasil, mas a tendência é de crescimento à medida que informação, acessibilidade e preço competitivo se tornarem realidade.
Campanhas educativas, transparência na comunicação e a criação de selos reconhecidos pelo público podem acelerar essa mudança de comportamento, tornando produtos sustentáveis a opção padrão, e não a alternativa.
O futuro da economia verde no Brasil não será construído por um único ator ou setor. Ele depende de um pacto coletivo, que envolva governos comprometidos com a agenda climática, empresas dispostas a repensar seus modelos de negócio, investidores preparados para assumir riscos e consumidores engajados em escolhas mais conscientes.
A boa notícia é que já temos exemplos concretos que provam que esse caminho é possível, e o IM Talks mostrou que as soluções estão aí, prontas para serem fortalecidas e ampliadas.
Como Impact Hub, nosso compromisso é continuar conectando pessoas e iniciativas, criando espaços para o diálogo e a ação, e contribuindo para que o Brasil assuma o papel de protagonista global na inovação climática e na economia verde.
A justiça climática parte do reconhecimento de que os impactos da crise climática não são distribuídos de forma igual. Embora todos sejam afetados, as populações mais vulneráveis, muitas vezes as menos responsáveis pelas emissões, sofrem de forma desproporcional com eventos extremos, perda de biodiversidade e degradação ambiental.
No Brasil, isso se reflete no cotidiano de comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas, agricultores familiares e moradores de áreas urbanas periféricas, que enfrentam desde inundações e secas até a perda de recursos naturais essenciais para sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, essas comunidades guardam conhecimentos e práticas ancestrais fundamentais para a adaptação climática e para a preservação de biomas, como a Amazônia e o Cerrado.
No IM Talks, a justiça climática foi citada como um princípio norteador para a inovação climática: ela exige que soluções ambientais estejam conectadas a desenvolvimento econômico inclusivo, garantindo que benefícios e oportunidades cheguem também àqueles que historicamente foram deixados de fora.
Sara Sampaio, da Amazônia Agroflorestal, reforçou que o diálogo sobre clima no campo é inseparável das questões básicas de qualidade de vida. Ou seja, não basta oferecer soluções técnicas sem olhar para as necessidades humanas.
Projetos de agrofloresta, crédito de carbono ou cadeias da sociobiodiversidade só se consolidam quando há um ecossistema que permita aos produtores prosperarem no presente enquanto constroem o futuro.
“O produtor rural não está discutindo mudanças climáticas, ele quer renda, quer internet, quer mandar o filho para a escola. Garantir o básico também é parte da justiça climática.”
— Sara Sampaio
No Impact Hub, vamos continuar a criar espaços de diálogo e ação, impulsionar negócios de impacto e fortalecer a economia verde. Nosso papel é ser ponte entre ideias e resultados concretos, ajudando a transformar o Brasil em referência global em inovação climática.
Entendemos que inovação climática e economia verde precisam caminhar junto com equidade social. Isso significa desenhar programas, parcerias e investimentos que considerem contextos, culturas e capacidades locais, garantindo que a transição para uma economia de baixo carbono seja também uma transição para um Brasil mais justo, inclusivo e resiliente.
Afinal, enfrentar a crise climática sem promover justiça climática é apenas adiar o problema. E nós escolhemos atuar para resolvê-lo pela raiz.
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