Nos últimos anos, o conceito de impacto social e econômico tem ganhado força entre gestores públicos, empreendedores, organizações do terceiro setor e instituições como o Impact Hub, que atuam na fronteira entre inovação e transformação social.
Diante de tantas urgências sociais e desafios econômicos complexos, entender o que é impacto e como medi-lo se tornou uma prioridade, especialmente para o setor público, que busca parceiros estratégicos para construir soluções sustentáveis de desenvolvimento.
Por isso, queremos te explicar o que é, afinal, impacto social e econômico, por que esse conceito está no centro das decisões públicas e privadas e como medi-lo de forma efetiva.
Além disso, queremos te apresentar exemplos reais de negócios e programas que estão mudando realidades no Brasil.
Impacto social e econômico se refere aos efeitos, sejam positivos ou negativos, que uma ação, projeto ou organização tem sobre a sociedade e a economia.
Esses impactos podem se manifestar de diversas formas: melhoria na qualidade de vida das pessoas, geração de emprego e renda, fortalecimento de comunidades, inovação em políticas públicas, entre outros.
De forma simplificada:
Impacto social é a transformação gerada na vida das pessoas e nas comunidades. Pode ser medido pela melhoria em indicadores de saúde, educação, inclusão social, segurança, bem-estar, entre outros.
Impacto econômico é a geração de valor financeiro, mas com uma lógica mais ampla do que o lucro. Inclui, por exemplo, criação de empregos dignos, fortalecimento de cadeias produtivas locais e desenvolvimento de novos mercados com foco em sustentabilidade.
Imagine um programa de formação empreendedora para mulheres em situação de vulnerabilidade como o Salto Inclusão Produtiva. O impacto social gerado por essa iniciativa não se limita ao número de participantes.
Ele pode ser medido pela inserção dessas mulheres no mercado de trabalho, pelo aumento de sua renda, pelo fortalecimento de sua autoestima e pelo efeito multiplicador que isso gera em suas famílias e comunidades.
Outro exemplo é o trabalho para geração de renda, desenvolvimento local e melhoria da qualidade de vida das comunidades em Açailândia, no Maranhão, promovido pelo programa AGIR (Apoio à Geração e Incremento de Renda).
A iniciativa é desenvolvida pela Fundação Vale com o apoio do Impact Hub como parceiro executivo, e as atividades envolvem formação e capacitação de empreendedores e investimento financeiro direto para os grupos de negócios selecionados. Os resultados se expressam em práticas sustentáveis, desenvolvimento econômico da região e novos modos de relação com o território.
Em todos esses casos, o impacto social é sentido no cotidiano das pessoas. Ele é concreto, ainda que, muitas vezes, difícil de quantificar.
No contexto do Impact Hub, muitos negócios que passam por nossos programas são exemplos vivos de como gerar impacto econômico com propósito social.
Em vez de pensar apenas na geração de receita, esses empreendimentos se concentram em criar soluções que movimentam a economia local, promovem inclusão produtiva e geram valor compartilhado.
Por exemplo, negócios apoiados pelo InovAtiva de Impacto Socioambiental, que executamos em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Sebrae, Fundação CERTI e Associação Brasileira de Startups, já promoveram geração de renda em regiões periféricas, interiorização da tecnologia e democratização do acesso a serviços básicos, como saúde e educação.
O programa é um dos maiores apoios a negócios de base tecnológica que buscam gerar impacto social ou ambiental positivo. Oferece recursos instrutivos, mentoria e conexões para fortalecer projetos inovadores de impacto.
Em 2024, foram 161 participantes e tivemos resultados como: 89% de aumento médio do impacto, mais de R$ 225 mil captados em investimento após o programa e mais de R$ 878 mil captados por meio de apoio público após o programa.
Ou seja, ao fomentar negócios sustentáveis, com modelos economicamente viáveis e socialmente comprometidos, contribuímos com a construção de economias mais justas, resilientes e regenerativas.
Governos têm um papel estratégico na construção de um ecossistema de impacto social e econômico robusto. Políticas públicas bem desenhadas podem criar ambientes favoráveis para o surgimento de soluções inovadoras, incentivar parcerias intersetoriais e escalar iniciativas de sucesso.
Exemplos concretos mostram que o poder público pode ir muito além do papel tradicional de regulador e assumir uma postura ativa como indutor de transformação socioeconômica.
Um bom exemplo disso é a adoção de critérios de impacto social nas compras públicas, como vem sendo feito em cidades como São Paulo, Recife e Porto Alegre. Os municípios já implementaram programas para destinar parte de suas compras governamentais a negócios de impacto, cooperativas ou iniciativas de economia solidária.
Em São Paulo, por exemplo, a Lei Municipal 17.823/2022 prevê que a administração pública priorize fornecedores com práticas sustentáveis e impacto positivo em seus processos licitatórios.
Outro caso é a criação da Estratégia Nacional de Economia de Impacto (Enimpacto), instituída pelo governo federal por meio do Decreto nº 11.646/2023. A Enimpacto organiza ações de diferentes ministérios e atores da sociedade civil para promover um ambiente mais favorável aos negócios que geram impacto socioambiental positivo.
Entre suas metas até 2027 estão o cadastro de 4 mil negócios de impacto, a mobilização de R$ 30 bilhões em investimentos e a articulação com governos locais para implementar políticas similares. A iniciativa já vem incentivando bancos públicos a criar linhas de crédito específicas para esse segmento e estimulando a adoção de métricas de impacto.
Além disso, iniciativas como a inclusão de cláusulas sociais em contratos públicos, como vem sendo promovido pelo BNDES e por programas estaduais de fomento, vêm se consolidando como instrumentos eficazes de inclusão produtiva.
Um exemplo é a cláusula que exige a contratação de pessoas em situação de vulnerabilidade (como egressos do sistema prisional ou moradores de comunidades periféricas) em obras e serviços contratados com recursos públicos, garantindo não apenas a execução do projeto, mas também a geração de oportunidades no território.
Essas práticas mostram que, quando bem desenhadas e implementadas, políticas públicas podem se tornar verdadeiros motores de desenvolvimento territorial sustentável, fortalecendo cadeias produtivas locais, reduzindo desigualdades e impulsionando modelos econômicos que conciliam rentabilidade com responsabilidade socioambiental.
Nenhum setor, por si só, tem todos os recursos, conhecimentos e legitimidade necessários para resolver problemas sociais complexos. É por isso que as parcerias intersetoriais (entre governos, empresas e organizações da sociedade civil) são tão essenciais para ampliar o alcance e a efetividade das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento territorial e ao impacto social e econômico.
No Impact Hub, temos aprendido na prática o valor dessas conexões por meio de programas estruturados de inovação aberta, em que empresas e órgãos públicos se unem a startups, negócios de impacto e organizações sociais para co-desenvolver soluções para desafios reais.
Esse tipo de colaboração vai além do patrocínio: envolve escuta ativa, cocriação de soluções e compartilhamento de riscos e aprendizados. Quando bem articuladas, essas parcerias geram efeitos em rede, fortalecendo ecossistemas locais, capacitando lideranças e ampliando a escala de soluções inovadoras.
A atuação conjunta com fundações empresariais em programas, por exemplo, demonstram como a união de recursos privados com a capacidade de articulação de organizações intermediárias e a legitimidade do poder público pode gerar soluções mais sustentáveis e adaptadas às realidades locais.
Ao adotar a inovação aberta como abordagem, o poder público deixa de ser apenas um contratante ou regulador e passa a ocupar um papel estratégico de articulador de ecossistemas. Essa é uma das formas mais potentes de acelerar o impacto sistêmico no território.
O Impact Hub já trabalhou em parceria com grandes corporações e também com o governo para desenvolver iniciativas de inovação aberta. Conheça alguns exemplos de utilização dessa abordagem de maneira estratégica.
O Impact Hub tem atuação importante no programa Passos para uma Vida Melhor, desenvolvido pela Novo Nordisk e que envolve Prefeitura de Campinas, com as secretarias de Educação, Esporte e Saúde, a população vulnerável da cidade, a Unicamp (representada pelo Centro de Estudos da Obesidade) e soluções inovadoras (health techs) que poderão se conectar ao projeto.
O objetivo é promover iniciativas voltadas ao controle e prevenção da obesidade e da diabetes tipo 2. O Impact Hub contribui com sua expertise em inovação aberta para conectar a Novo Nordisk com soluções para saúde, bem-estar e mudanças de comportamento.
O programa desenvolve um ecossistema colaborativo em que novas ideias e abordagens são incorporadas para gerar impacto tanto em nível social quanto de saúde pública.
Em 2022, o Impact Hub participou de uma concorrência e foi selecionado para ser o parceiro exclusivo para execução da estratégia de inovação aberta da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), de 2023 a 2025.
O objetivo é oferecer um arcabouço completo de inovação aberta para solucionar problemas de gestão pública por meio da participação da sociedade, trazendo mais diversidade e inovação.
Fazem parte da estrutura do programa:
O Impact Hub atuou diretamente no programa IdeiaGov, uma iniciativa de inovação aberta promovida pelo Governo do Estado de São Paulo em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
O objetivo principal foi buscar soluções inovadoras para os desafios enfrentados pelo setor público, conectando startups e empresas de tecnologia que atendessem às necessidades do governo.
O Impact Hub contribuiu oferecendo sua expertise em inovação aberta para facilitar a colaboração entre os diferentes atores envolvidos, coordenando a seleção de projetos, mentorias e o desenvolvimento de pilotos.
Essa atuação ajudou a acelerar a implementação de soluções que geram impacto social e econômico, integrando inovação no setor público com o ecossistema empreendedor.
Para governos e gestores públicos, medir o impacto social e econômico de políticas, programas e projetos vai muito além da prestação de contas: trata-se de tomar decisões com base em evidências concretas, garantir o uso eficiente dos recursos públicos e gerar valor real para a população.
Ao incorporar metodologias de avaliação, a gestão pública pode:
Um exemplo prático disso é a aplicação da mensuração de impacto em programas de apoio ao empreendedorismo, como o Salto, voltado a microempreendedores em regiões periféricas. Graças à coleta sistemática de dados — antes, durante e após as capacitações —, o programa demonstra aumento de faturamento, maior formalização de negócios e crescimento da autoconfiança dos participantes.
Ao apresentar esses resultados de forma estruturada, o programa não só fortalece sua legitimidade perante gestores públicos como também viabiliza novas parcerias e investimentos.
Hoje, cada vez mais editais e contratos públicos incluem cláusulas de avaliação de impacto como critério de seleção ou de continuidade de projetos. O que antes era diferencial, agora se torna requisito. Ao adotar essa lógica, o setor público passa a atuar com mais estratégia, eficiência e foco em resultados reais para o território.
Mensurar impacto social e econômico exige metodologia, consistência e sensibilidade para captar mudanças que vão além dos números. Felizmente, existem ferramentas que ajudam organizações públicas, privadas e do terceiro setor a estruturar, acompanhar e comunicar seus resultados com mais clareza.
Aqui listamos cinco recursos amplamente utilizados no campo do impacto, com diferentes níveis de complexidade e aplicabilidade:
A Teoria da Mudança é uma metodologia de planejamento estratégico que ajuda a visualizar o caminho entre uma intervenção e os impactos que ela pretende gerar.
A ferramenta convida a organização a refletir sobre seus objetivos finais, os resultados esperados em cada etapa, as atividades necessárias e os pressupostos que sustentam essa lógica de transformação.
É amplamente utilizada em políticas públicas, programas sociais e projetos de desenvolvimento. Pode ser representada em fluxogramas, mapas visuais ou textos narrativos.
Desenvolvido pelo Global Impact Investing Network (GIIN), o IRIS+ é um sistema de métricas padronizadas para mensuração de impacto. Ele permite comparar resultados entre diferentes iniciativas, garantindo mais consistência e transparência.
As métricas IRIS+ cobrem áreas como saúde, educação, inclusão financeira, sustentabilidade ambiental, entre outras. É especialmente útil para organizações que pretendem dialogar com financiadores ou investidores de impacto.
Criado pelo B Lab, o B Impact Assessment é uma ferramenta online gratuita que permite avaliar o desempenho de uma empresa em cinco dimensões: governança, trabalhadores, comunidade, meio ambiente e clientes.
A ferramenta é utilizada por empresas que desejam obter a certificação de Empresa B, mas também pode ser usada por qualquer organização que queira mapear seus pontos fortes e oportunidades de melhoria em relação ao impacto positivo que gera.
Fruto de uma parceria entre o B Lab e a ONU, o SDG Action Manager ajuda organizações a entenderem como suas ações se alinham aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ele oferece diagnósticos personalizados e sugestões de ações com base no setor e no porte da organização.
É ideal para gestores públicos que desejam incorporar os ODS em suas políticas e programas, além de organizações que buscam integrar seus indicadores aos compromissos globais de sustentabilidade.
No Impact Hub, desenvolvemos uma metodologia própria para medir o senso de pertencimento, um dos principais indicadores de impacto nos programas que executamos. Acreditamos que quanto mais as pessoas se sentem parte de uma comunidade, mais engajadas, produtivas e transformadoras elas se tornam.
Esse indicador qualitativo é avaliado por meio de pesquisas com os participantes dos programas, entrevistas em profundidade e observações sistemáticas. Ele se conecta diretamente à nossa teoria de mudança e tem sido essencial para aperfeiçoar continuamente nossas abordagens.
Essas ferramentas podem ser utilizadas de forma combinada e adaptadas conforme o estágio da iniciativa, o contexto territorial e os objetivos específicos do projeto. Mais do que instrumentos técnicos, elas são aliadas estratégicas para gerar e comunicar valor real à sociedade.
Gerar impacto social e econômico positivo não está restrito a grandes organizações. Negócios pequenos, startups, organizações comunitárias e órgãos públicos podem atuar de forma intencional e estratégica para transformar realidades.
Aqui vão algumas estratégias que podem ajudar a trilhar esse caminho:
Quando governos e gestores públicos buscam instituições para implementar projetos sociais e econômicos, alguns critérios podem garantir mais efetividade e alinhamento:
A efetividade de qualquer iniciativa de impacto social e econômico está diretamente relacionada à sua capacidade de dialogar com o território onde será implementada. Ações padronizadas, desenhadas de forma centralizada e sem considerar a escuta ativa das comunidades locais, frequentemente enfrentam baixa adesão, geram desconfiança e não alcançam resultados sustentáveis.
Adotar uma abordagem territorial é mais do que uma boa prática, é uma condição essencial para gerar transformação real. Isso significa compreender vulnerabilidades, reconhecer as potências locais, mapear os atores envolvidos e, principalmente, incluir as pessoas que vivem o dia a dia do território em todas as fases do processo, da concepção à avaliação.
Um exemplo dessa abordagem é o projeto realizado em parceria entre a Fundação Grupo Volkswagen e o Impact Hub, que utilizou a cartografia socioambiental como ferramenta para embasar decisões estratégicas em territórios vulneráveis.
O mapeamento trouxe à tona dados georreferenciados sobre indicadores sociais, ambientais e econômicos, identificando desafios e ativos dos territórios analisados. Com isso, foi possível direcionar melhor os investimentos sociais da fundação, ampliar a escuta qualificada e fomentar parcerias mais aderentes à realidade local.
Esse tipo de metodologia, ao ser implementado com participação ativa da comunidade e articulação entre diferentes setores, contribui para o desenvolvimento territorial com mais justiça social, eficiência e legitimidade.
Iniciativas bem sucedidas respeitam a cultura local, constroem confiança, promovem o protagonismo das lideranças comunitárias e fortalecem a capacidade dos territórios de sustentarem seus próprios caminhos de desenvolvimento.
Gerar impacto social e econômico positivo é uma tarefa complexa, mas possível e cada vez mais necessária. Governos, organizações, empresas e cidadãos têm um papel fundamental na construção de um futuro mais justo, sustentável e próspero para todos.
Não se trata de uma tendência passageira, é uma estratégia de desenvolvimento que responde aos desafios mais urgentes do nosso tempo. Quando nos unimos com intencionalidade, escuta e foco em resultados, é possível construir políticas mais eficazes, negócios mais sustentáveis e territórios mais resilientes. O impacto que queremos para o futuro começa com decisões conscientes no presente.
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